A cidade de Viseu se torna uma prisão de tijolos
e silêncio. O juiz António Ferreira,
recémchegado da capital, descobre que os
processos judiciais são decididos antes do
julgamento. Uma carta anônima chega ao seu
gabinete: "Você pode ser útil ou inútil. Escolha.
"
No mercado central, um comerciante é acusado de
desvio de fundos públicos. A avó Sábia, que vive
no quintal da casa do juiz, sussurra sobre
velhas práticas de corrupção. Ela diz: "O
dinheiro muda de mãos, mas o peso permanece."
António rejeita a primeira oferta de suborno. No
dia seguinte, sua filha menor é raptada. A
polícia ignora o caso. Ele tenta denunciar, mas
os registros da delegacia estão vazios. A cidade
respira com o medo.
Na quintafeira, o juiz vai ao tribunal. O réu é
condenado por um voto único. O advogado do
comerciante entregalhe um envelope com dinheiro.
António pegao, mas não abre. Na sala de
audiências, ele pronuncia: "Este caso é
nulo."
A cidade murmura. O comerciante é liberado. A
avó Sábia chora em silêncio. António sai do
tribunal, seguido por olhares. No caminho para
casa, ele encontra a filha, escondida na estrada.
Ela diz: "Eles me deixaram porque você não
aceitou."
A cidade não muda, mas o juiz não é mais o mesmo.
Ele escreve uma carta ao presidente da república,
sem endereço. O documento é entregue em Lisboa,
mas nunca chega. O voto que não foi dado
continua a pesar.


