Em 1912, numa aldeia do interior, o jovem
António Pereira, filho de um agricultor sem
terra, é convocado pelo tio para uma reunião
noturna. O tio, extenente da monarquia,
apresentalhe um pacto: casarse com uma mulher de
família rica, mas sem amor, para ganhar acesso a
terras e influência. António, porém, recusa,
preferindo seguir seu próprio caminho. A
rejeição gera uma ruptura familiar imediata —
seu pai o expulsa da casa, e o tio o ameaça com
uma dívida antiga.
No dia seguinte, António é acordado por um grupo
de homens armados. Eles o levam à cidade, onde é
apresentado ao juiz local. O juiz, conhecido por
sua corrupção, declara que o casamento entre
António e Maria Fernandes, filha de um rico
comerciante, é "nulo" por falta de
testemunhas.
A lei da época exige três testemunhas para
validar um matrimónio, e António não as possui.
Ele é obrigado a assinar um documento que lhe
garante acesso a terras, mas que também o torna
oficialmente "sem família".
A partir daí, António vive como um cidadão sem
identidade. Procurado por seus antigos vizinhos,
ele se esconde nas ruas da cidade, trabalhando
como ajudante de um artesão. No entanto, o tio
continua a pressionálo, exigindo que ele aceite
o papel de "marido nulo" para garantir a
continuidade do pacto. António recusa novamente,
mas descobre que o tio já havia registrado o
casamento no cartório, usando falsas testemunhas.
No inverno de 1915, António é acusado de estupro
por Maria Fernandes. O caso chega ao tribunal,
onde ele é condenado por "falso casamento" e
"violação de direitos civis". A
sentença inclui
a perda de todas as terras que ele havia
recebido, além de uma multa pesada. O tio, porém,
intervém, garantindo que a pena seja reduzida,
mas o título de "homem sem família"
permanece.
Anos depois, em 1920, António volta à aldeia sob
um novo nome. Ele descobre que Maria Fernandes,
agora viúva, está grávida de seu filho. O tio,
agora membro do governo republicano, tenta
evitar que o caso vire escândalo. António, porém,
decide revelar a verdade em uma assembleia
popular. A informação causa uma revolta
silenciosa, mas eficaz: os moradores da aldeia
começam a questionar os novos poderes da
República, que parecem manter os mesmos
privilégios da monarquia.
O último evento ocorre em 1924, quando António é
chamado para testemunhar em um processo contra o
tio. Ele nega qualquer envolvimento, mas o juiz,
que já havia sido pago, condenao novamente.
Dessa vez, a punição é a prisão. António é preso,
mas durante a detenção, ele escreve uma carta
que é enviada a um jornalista. A carta revela
todos os detalhes do pacto e das mentiras por
trás do "matrimónio nulo", causando um
escândalo
nacional. O tio é afastado do cargo, e António é
liberado, mas sem direito a mais nada.
A história termina com António vivendo em uma
pequena casa nos arredores da cidade, onde passa
seus dias a escrever. Ele nunca mais se casa,
nem busca reconexão com a família. O que resta é
um homem que, apesar de tudo, conseguiu mudar a
forma como a República tratava os "homens sem
causa".


