A casa do Sr. João Ferreira, no centro de uma
aldeia do Minho, mantémse imóvel sob o peso das
tradições. O homem, exmilitar e líder local,
comanda sua família com firmeza, mas seu filho
mais velho, António, começa a questionar as
escolhas do pai. Em 1912, durante a
instabilidade pósmonarquia, João foi condenado
por ter ajudado a expulsar um grupo de
republicanos que tentava tomar a cidade. A
memória do evento ainda pesa sobre ele.
No verão de 1915, António, então com 18 anos,
desaparece após uma discussão com o pai. O pai
manda buscar o rapaz, mas o encontra morto em
uma estrada, atropelado por um automóvel
estranho. A polícia não investiga. João recusase
a falar do assunto, mas os moradores da aldeia
começam a suspeitar de algo mais.
Em 1917, a república está consolidada, mas a
aldeia ainda vive sob o peso do passado. João
proíbe qualquer menção ao acidente, mas um
jornal local publica um artigo sobre os crimes
da época. O texto menciona um oficial chamado
Ferreira, envolvido na repressão de
manifestantes. A família é humilhada. João manda
queimálo, mas o fogo se espalha, destruindo
parte da casa.
Em 1920, António é reencontrado vivo, mas com
memória perdida. Ele volta para a aldeia, mas
ninguém o reconhece. João o acolhe, mas o mantém
distante. O jovem começa a sonhar com cenas de
violência, com vozes de homens gritando. Um dia,
ele encontra um caderno escondido no sótão —
anotações de João sobre os dias da revolta,
incluindo o nome do motorista do carro que matou
António.
Em 1922, o jovem descobre que o motorista era um
antigo companheiro de armas de João, que fugiu
após o acidente. O homem, agora um comerciante
em Lisboa, é localizado. António viaja até a
capital, mas o encontra já morto, afogado em um
rio. A causa da morte é considerada acidental,
mas António percebe que o corpo foi jogado com
intenção.
Em 1924, o pai, já idoso, decide deixar a aldeia.
Ele compra uma pequena propriedade no Alentejo,
longe de tudo. António segueo, mas não fala com
ele. No inverno seguinte, João sofre um colapso.
António o leva ao hospital, onde ele morre sem
dizer uma palavra. O médico nota que a causa da
morte foi uma hemorragia interna, mas não
explica como.
António herda a casa, mas não a ocupa. Deixaa
vazia, como se fosse um túmulo. Em 1926, ele
escreve uma carta à cidade, revelando os
segredos de seu pai. A carta é lida por alguns,
ignorada por outros. Nenhuma ação é tomada.
António sai da aldeia, nunca mais voltando. A
casa fica abandonada, coberta de musgo e
silêncio.


