A cidade de Alvalade é reduzida a escombros após
o colapso da rede energética. O sistema de
controle central, que mantinha a ordem, caiu há
meses, e os sobreviventes se dividem entre
refugiados no subsolo e mercenários que roubam
até o ar. A regra número 37 proíbe a entrada em
áreas de alta radiação, mas ninguém a respeita
mais.
O homem que a encontrou foi um médico antes do
fim. Agora é um caçador de recuerdos, vendendo
objetos antigos aos que ainda têm dinheiro. Ele
a viu pela última vez na praça principal, onde
ela saiu correndo com um pacote de papel,
dizendo que "não podia voltar".
No dia seguinte, as câmaras de segurança
apagaram. As ruas vazias começaram a emitir sons
estranhos — sussurros em línguas mortas, vozes
que não pertenciam a ninguém. A cidade começou a
mudar. As paredes se desfaziam em partículas, e
o tempo paralisava em pontos específicos.
Ele a procurou por semanas. Encontrou um diário
em uma casa abandonada, escrito em código. A
única linha legível era: "Eles sabem. Eles estão
aqui." O código era uma chave para um
laboratório subterrâneo, onde os últimos
cientistas tentavam reconstruir a memória do
mundo.
Ao entrar, ele descobriu que a governanta não
havia desaparecido. Ela estava presa em um ciclo
temporal, repetindo a mesma manhã todos os dias.
A regra número 12 proibia a manipulação do tempo,
mas os cientistas a quebraram para salvála. O
custo era que cada tentativa de libertála fazia
o mundo se desintegrar mais rápido.
Ele escolheu não interferir. Deixoua viver a
mesma manhã, sem fim, enquanto a cidade acabava.
A regra número 45 estabelecia que os humanos não
tinham direito à redenção, apenas à existência.
Ele saiu, deixando o diário sobre o altar, e
caminhou para o horizonte, onde a terra já não
existia.


