A rua das Flores, em Lisboa, era conhecida por
suas casas antigas e pelo silêncio denso que as
envolvia. O tempo parou ali, como se a cidade
inteira tivesse esquecido como respirar. Em 2023,
um homem foi encontrado morto em sua casa, sem
marcas visíveis de violência. A polícia chamou o
caso de "suicídio", mas os moradores sabiam
melhor: algo estava errado.
O patriarca Severo, líder da família Moreira,
recebeu um bilhete anônimo com a frase "Tu
sabes". Ele não sabia. Mas seu filho mais velho,
João, começou a notar coisas: sombras que se
moviam sozinhas, vozes sussurrando no quarto do
pai, e um cheiro de terra molhada que não
pertencia àquela casa.
A cidade mudou. As luzes das ruas começaram a
piscar sem motivo, e os moradores começaram a
falar de um "sobrenatural urbano" que andava
entre eles. A igreja local fechou as portas, e o
padre, um homem idoso e supersticioso, foi visto
correndo pela praça com um crucifixo em mãos.
João decidiu investigar. Ele encontrou um diário
antigo, escondido atrás de um quadro na sala de
jantar. Nele, estava escrito: "Ela voltará
quando a última luz for apagada". A última luz
era a da casa dos Moreira.
O patriarca Severo, que sempre negara qualquer
ligação com o passado, foi acordado às três da
manhã por um barulho na cozinha. Quando chegou,
viu sua esposa, Clara, de pé, olhando para fora
da janela. Ela não falou, mas ele soube: ela era
a culpada. O corpo do homem era o de um antigo
amante, morto há décadas, e a mulher não havia
envelhecido.
No dia seguinte, o povo da rua das Flores
começou a desaparecer. Alguns diziam ter visto
Clara correndo pelas ruas, seguida por um vento
frio. Outros juravam ter ouvido uma voz chamando
pelo nome de João, mas ele nunca saía de casa.
A cidade parou. As lojas fecharam, os ônibus não
passaram, e ninguém mais ousou entrar na rua das
Flores. A única coisa que permaneceu foi a casa
dos Moreira, imóvel, como se esperasse por algo.
E, no fim, o patriarca Severo foi encontrado
morto no mesmo quarto onde o homem estranho
havia sido encontrado. Sua boca estava aberta,
como se tivesse tentado gritar, mas nada saiu.


