A cidade de Lisboa é repentinamente envolta em
uma névoa prateada que reescreve as ruas, os
edifícios e até o próprio tempo. As pessoas
começam a esquecer eventos recentes, mas retêm
lembranças antigas. A artista Sofia, conhecida
por suas pinturas emocionais, acorda em seu
estúdio sem saber como chegou ali. Suas mãos
estão sujas de tinta vermelha, e um quadro no
chão mostra uma cena que nunca fez: uma mulher
de costas, olhando para o mar.
Era contemporâneo se transforma em um espaço
onde o passado e o presente coexistem. As leis
da física são ajustadas: o tempo não flui
linearmente, mas em camadas. O governo tenta
controlar a situação, mas os cidadãos começam a
questionar o que é real e o que foi inventado.
Sofia descobre que sua memória está dividida:
ela foi uma artista em 1926, durante a Transição
Republicana, e também viveu nos anos 1970,
durante a Retro Memória.
A amnésia seletiva afeta todos, mas Sofia mantém
fragmentos de duas vidas. Ela começa a pintar
novamente, usando cores que não existem no mundo
atual. Seus quadros revelam lugares que não
existem mais — uma aldeia destruída, uma praça
ocupada por soldados, um teatro em ruínas. Os
espectadores dos seus trabalhos têm visões
fugazes de algo que não deveria estar lá.
Durante uma exposição, um homem identificase
como seu antigo amante, um poeta que morreu em
1926. Ele a reconhece, mas ela não o conhece. A
polícia interrompe a exposição, acusandoa de
manipular a realidade. Ela é presa, mas durante
a prisão, uma nova onda de névoa atinge a cidade.
A memória da própria prisão desaparece, e ela é
liberada sem explicação.
Sofia descobre que o fenômeno está ligado à sua
arte. Cada pintura que cria altera a realidade
em pequenas áreas. Ela decide usar isso para
restaurar uma parte da cidade que foi perdida —
uma praça que era o centro de sua vida na década
de 1970. Com a ajuda de um grupo de artistas e
historiadores, ela pinta a praça de novo, mas ao
terminar, a realidade se desfaz. A praça volta a
existir, mas agora é um lugar vazio, sem pessoas,
sem som, apenas a imagem de um tempo que já não
existe.
O estado declara que a arte é uma ameaça à ordem
pública. Sofia é forçada a deixar a cidade. Em
sua última noite, ela pinta um retrato de si
mesma, mas ao acordar, o quadro está vazio. Sua
memória foi apagada por completo. O mundo segue
adiante, mas alguns dizem ter visto um vento
branco passar pela cidade, carregando a silhueta
de uma mulher com pincel nas mãos.


