O mercado de recordações abriu em Lisboa sob o
novo regime: cada sonho, cada dor, era extraído
por máquinas que trocavam emoções por créditos.
A cidade respirava em silêncio, porque os sonhos
já não eram seus.
A Casa dos Espelhos, antiga residência de um
cientista que desapareceu em 1918, foi reaberta
como centro de colheita. Lá, mulheres com olhos
cobertos por lentes opacas trabalhavam dia e
noite, entregando lembranças para serem vendidas.
Uma delas, Maria da Conceição, tinha as pupilas
nulas desde o parto — mas ouvia vozes nos
arquivos.
O Vilão Carismático chegou em carro negro, sem
placa, com voz de rádio antigo. Dizia que
restauraria a verdade perdida. Prometia devolver
às pessoas o direito de sofrer por si mesmas. Os
contratos foram assinados em sangue — todos
tinham um sinal gravado na palma da mão,
invisível até à primeira perda.
A Fantasia Lusitana surgiu quando os registros
começaram a apresentar cenas impossíveis:
aldeias do século XVII apareciam nas ruas de
Belém; crianças cantavam canções de fado que
nunca foram escritas. As máquinas falhavam. O
sistema de controle entrou em colapso.
Na noite da Queda em Desgraça, o canal feminino
foi fechado. Todos os registros foram apagados.
Mas Maria, que nunca falou, escreveu no chão com
unha: “Ninguém tem direito sobre o que não viveu.
”
Ao amanhecer, todas as máquinas estavam fundidas.
Os espelhos rachados refletiam rostos
desconhecidos. O líder desapareceu — só restou
um bilhete pregado na porta da casa: “Você me
lembra de quem eu era antes de querer ser Deus.”
No centro da cidade, uma criança de sete anos
recolheu um pedaço de vidro partido. No reflexo,
viu uma menina com olhos negros e mãos vazias.
Ela sorriu. E chorou.
Este mundo ainda não sabia que o que se perdeu
não pode ser comprado.


