A aldeia de Vale da Morte, isolada no interior
de Portugal, mantém um ritual antigo: a cada 25
anos, os moradores vendem objetos de valor
emocional em um leilão público. O mecanismo
funciona como uma forma de limpar memórias
pesadas, mas a regra é clara — nada pode ser
comprado por mais de 100 escudos, e nenhum
objeto pode ser levado para fora do povoado.
O burocrata Correia, extesoureiro de uma fábrica
em Lisboa, é condenado a passar 30 dias na
aldeia como punição por corrupção. Ele chega com
um único objetivo: recuperar um documento que o
incrimina e esconder seu nome da lista de
acusados. Mas ao chegar, descobre que o leilão
está sendo organizado por uma figura
desconhecida, a "Voz do Povo", que
controla as
regras e os objetos expostos.
No primeiro dia, Correia vê sua própria foto de
casamento subir à arquibancada. A imagem é
arrancada de uma gaveta do salão paroquial, onde
ela estava guardada desde 1922. Ninguém sabe
como chegou ali, mas o leilão começa. A foto é
vendida por 100 escudos a uma mulher idosa, que
depois desaparece sem deixar rastro. Correia
tenta recuperala, mas a regra do leilão impede
qualquer devolução.
Na segunda noite, ele descobre que o leilão não
é apenas sobre objetos, mas sobre memórias. Cada
item traz consigo um fragmento de história que
pode ser alterado se alguém pagar o preço. Ele
percebe que sua esposa, que desapareceu há dez
anos, está ligada a esse sistema — ela foi uma
das primeiras a vender um objeto e, por isso,
sumiu.
Correia decide comprar um dos itens mais
valiosos: um relógio de bolso que pertenceu a um
soldado morto na Guerra Colonial. O preço é 100
escudos, mas o objeto não pode ser levado para
fora da aldeia. Ele o compra, mas ao tocar o
relógio, ouve uma voz dentro de sua cabeça:
"Você não quer voltar, Correia?". O
tempo parece
desacelerar.
No terceiro dia, a Voz do Povo aparece
pessoalmente. Ela é uma mulher jovem, com olhos
brilhantes e mãos vazias. Ela lhe oferece um
novo contrato: trocar o documento que o
incrimina por um novo passado, onde sua esposa
ainda vive. Correia hesita, mas a regra é clara:
se ele aceitar, sua vida anterior será apagada e
ele nunca poderá sair da aldeia.
Ele escolhe o documento. A Voz do Povo o entrega
em uma caixa de madeira, e Correia sai do salão.
Ao chegar ao portão, o mundo ao redor muda. As
ruas são outras, as pessoas têm rostos
diferentes, e o documento em suas mãos é agora
um recibo de venda de um objeto antigo. Ele não
sabe se está livre ou preso.
O leilão termina no quarto dia. Todos os objetos
são devolvidos às suas origens, e a aldeia volta
a silenciar. Correia, agora um homem diferente,
caminha pela estrada de terra, com o coração
pesado e o passado em suspenso.


