A cidade de Alcobaça desmorona sob a pressão de
uma nova ordem. O tempo não flui mais
linearmente; os eventos do passado se repetem
com precisão mecânica, forçando todos a viverem
as mesmas decisões. A lei da reiteração é
imutável: quem tenta mudar o curso do tempo é
punido com a perda total da memória.
A mãe, Maria, encontra seu filho, João, deitado
na estrada, sem saber como chegou lá. Ele não se
lembra de ter saído de casa, nem de ter sido
atingido por um carro. Os médicos dizem que ele
está "repetindo" uma cena de 1923,
quando o pai
foi morto em um conflito de classes. Maria, que
há anos viveu no limbo entre o presente e o
passado, decide agir.
Ela rouba um relógio de areia antigo, um objeto
raro que pode interromper a reiteração. Mas o
uso do relógio exige um custo: cada volta da
areia gasta parte da vida de quem o manipula.
Maria pega o relógio, mas ao abrilo, descobre
que ele já foi usado antes — por ela mesma, em
uma vida anterior.
O sistema de reiteração começa a falhar. Cenas
do passado se sobrepõem ao presente. O povo da
cidade, acostumado a viver em ciclos, se
confunde. Políticos tentam usar a confusão para
impor novas leis, mas Maria, agora com a memória
fragmentada, consegue identificar o padrão: o
poder está nas mãos de um grupo que controla os
relógios.
Ela confronta o líder, um homem que carrega um
relógio maior, feito de ferro e sangue. Ele
explica que a reiteração é uma forma de controle:
os ricos vivem em ciclos fixos, enquanto os
pobres são forçados a repetir erros. Maria, ao
usar o relógio, quebra o ciclo. O tempo começa a
fluir novamente, mas ela perde o filho, que se
torna parte do passado.
No final, Maria fica sozinha, com apenas um
relógio vazio e a certeza de que o mundo não
será o mesmo.


