A aldeia de São Martinho é habitada por quem

recusou o progresso. A única via de acesso ao

mundo exterior é um velho avião de madeira,

guardado em uma garagem fechada há décadas. O

avião é parte de um acordo: os moradores não

saem, e o mundo não entra.

O músico falhado, Augusto, volta à aldeia após

anos longe. Ele foi expulso da capital por ter

tentado tocar jazz em um salão de festas

tradicional. No seu primeiro dia, ele encontra a

garagem aberta, o avião intacto. Um homem idoso,

com o nome gravado em uma placa de ferro, lhe

diz: "Este é o último voo. Não te atrevas a voar.

"

Augusto ignora o aviso. Ele sequestra o avião,

pousa em Lisboa, e descobre que o tempo na

aldeia não segue as regras do mundo. Crianças

nascem com memórias de eventos que ainda não

aconteceram. O tempo é um círculo, e o avião é o

único meio de escapar.

Ele tenta voltar, mas o avião não obedece às

leis da física. Quando ele desliga o motor, o

mundo ao redor para de existir. O avião é uma

cápsula temporal, e o único que pode controlar

sua função é quem tem sangue da família que

fundou a aldeia.

Augusto descobre que sua mãe era a última

descendente da linhagem. Ela o abandonou para

protegêlo do pacto. Ele é o herdeiro do acordo.

Se ele voar novamente, o mundo inteiro será

forçado a seguir o ciclo.

Ele decide não voar. Em vez disso, destrói o

avião. A aldeia cai em ruínas, mas o tempo

começa a fluir normalmente. O pacto é quebrado.

O mundo exterior entra, e a aldeia é absorvida

pela cidade.

Augusto vive como um fantasma, sem passado nem

futuro. A traição conjugal de sua mãe — ela o

abandonou para salvar o mundo — é o peso que o

mantém vivo. Ele não quer mais música, mas

escreve uma canção sobre o avião. Ninguém a ouve,

mas ela fica registrada em um papel, dentro de

um caixote de madeira, no canto de uma loja

abandonada.