A cidade respira em silêncio. As ruas de Lisboa,
ainda sob o peso da transição republicana,
guardam segredos enterrados nas paredes das
casas antigas. Um homem, com viola na mão e
desemprego no peito, toca em praças públicas
para ganhar o pão do dia. Sua música é fraca,
sua vida sem direção. A única coisa que ele tem
é uma carta recebida por correio, endereçada a
"João Ferreira", mas assinada com o
nome de seu
pai, morto há anos.
No quarto escuro de um apartamento de prédio
antigo, João abre a carta. Dentro, uma chave e
um endereço: Rua das Flores, 123. O endereço
pertence a uma casa abandonada, ocupada por uma
família que desapareceu durante a guerra
colonial. O local é conhecido como "o lugar onde
os sonhos morrem". João não sabe por quê, mas
sente que precisa ir.
Ao chegar, encontra uma sala de música intacta,
como se o dono tivesse saído há minutos. Há
partituras, instrumentos, e uma caixa de madeira
com um diário. O diário fala de uma técnica rara:
"tempo congelado". O autor, um compositor que
viveu na década de 1960, afirma ter criado uma
forma de capturar momentos de vida em objetos,
como se fossem embalsamados. Quando alguém toca
um instrumento feito com esses fragmentos,
revive o momento em que foi criado — mas apenas
por um instante.
João toca um violino antigo. O chão treme. Ele
vê um homem idoso, seu pai, tocando em uma sala
escura, com olhos cheios de medo. O pai diz:
"Não te deixe enganar pelo tempo. Ele é um
ladrão." O momento dura segundos, mas deixa João
com uma dor no peito, como se tivesse perdido
algo importante.
Ele volta à casa, mas agora percebe que a chave
abre uma gaveta trancada. Dentro, há uma fita de
vídeo amassada. Ao reproduzila, vê uma cena de
1975: sua mãe, jovem e chorando, segurando um
bebê. Ela murmura: "Não vou deixar isso
acontecer de novo." A fita cai, e o vídeo se
apaga. João não sabe se é real ou apenas um
sonho.
Na semana seguinte, ele recebe uma visita. Um
homem de terno cinza, com olhos que parecem ver
além do tempo, lhe entrega uma carta. Diz que é
um "guardião do tempo" e que João está no
caminho errado. "Você está usando o que não deve,
" diz. "O tempo não é para ser
reescrito. É para
ser vivido."
João recusa a oferta de ajuda. Ele quer entender.
No dia seguinte, ele vai à casa novamente. Desta
vez, o tempo parece diferente. Os objetos estão
mais pesados, o ar mais denso. Ele toca outra
música. Dessa vez, vêse criança, correndo pelas
ruas de Alvalade, com um brinquedo quebrado. O
menino chora. O adulto que ele é não pode ajudar.
O tempo é um muro.
Ele decide destruir tudo. Joga os instrumentos
no lixo, queima as partituras. Mas quando tenta
sair, a porta fecha. O homem de terno volta.
"Você não pode fugir do que é seu,"
diz. "Mas
você pode escolher como carregálo."
João acorda no chão, com a fita de vídeo em mãos.
A casa está vazia. Ele sai, e ao olhar para trás,
vê que a casa desapareceu. Na rua, um grupo de
pessoas o observa. Ninguém fala. Todos sabem. O
tempo não é um inimigo. É um companheiro. E João,
por fim, entendeu.


