A menina é deixada na porta de uma casa de
família rica em Lisboa, no ano de 1912. O
documento amarrotado com o selo da República
indica que ela é filha de um oficial morto na
Revolução. A família a adota, mas mantém o
segredo: ela é uma órfã resiliênte, sem direito
a herança ou nome.
Em 1915, o pai adotivo, um industrial com
ligações ao novo governo, decide unir a família
a um político emergente através de um casamento
por conveniência. A menina, agora com dezesseis
anos, é apresentada como noiva de um senador que
busca legitimidade. O contrato é assinado, e ela
é transferida para uma casa em Sintra, onde vive
sob vigilância constante.
No verão de 1916, ela descobre um diário
escondido no sótão, escrito por sua mãe
biológica — uma mulher que fora exilada por
criticar o regime. O diário menciona uma
"Fantasia Lusitana", um ritual antigo que,
segundo acreditase, pode alterar o destino de
quem o conhece. A menina começa a seguir pistas,
ignorando os olhares de desaprovação da família.
Em 1918, durante uma festa de aniversário do
noivo, ela é pega tentando acessar uma sala
proibida. O pai adotivo a confronta, revelando
que ela foi adotada para proteger o segredo de
sua origem. Ele a manda embora, mas não antes de
lhe entregar um mapa com coordenadas para uma
aldeia distante, onde a "Fantasia Lusitana"
ainda existe.
Ela parte em 1919, viajando à noite com apenas
uma mala e o diário. Encontra uma velha
curandeira que confirma a existência do ritual,
mas avisa que ele exige um custo: o pacto deve
ser feito com alguém que tenha ligação com o
passado da família. A menina recusa, preferindo
viver como uma cidadã comum, mas a curandeira
insiste: "Você carrega o sangue das duas
linhagens. Não pode fugir disso."
Em 1921, ela volta a Lisboa, mas não como noiva.
Com o apoio de uma freira que a ajudou a escapar,
ela denuncia o pai adotivo por ocultar a verdade
e usar a família como peças em um jogo político.
A mídia se mobiliza, e o regime começa a perder
força. A menina é expulsa da cidade, mas não
antes de deixar um manifesto assinado com o nome
de sua mãe biológica, agora reivindicado como
seu próprio.
No final de 1923, ela mora em uma pequena aldeia,
trabalhando como professora. O ritual da
"Fantasia Lusitana" nunca é realizado, mas o
peso de seu passado a acompanha. Ela não é mais
uma órfã, mas tampouco é parte da nova ordem.
Sua história permanece entre as sombras, mas não
esquecida.


