A República é proclamada em 1910. A capital vive
em caos. As ruas são palco de protestos e
promessas vazias. Um homem de voz suave, com
olhos que lembram os de um cidadão comum, começa
a falar nas assembleias. Ele não usa terno, nem
traição — apenas convence. Seu nome é António
Ferreira, e ele diz que quer paz.
No bairro de Alcântara, uma jovem chamada Maria
Rosa descobre que seu irmão, um soldado
republicano, foi assassinado na noite do 5 de
Outubro. O corpo foi encontrado com uma carta de
amor esquecida no bolso. A carta é assinada por
uma mulher cujo nome não se conhece, mas cuja
escrita é familiar. Maria Rosa decide investigar.
António Ferreira, apesar de popular, é suspeito.
Sua influência cresce com cada discurso. Ele
convida líderes locais para jantares em sua casa,
onde as conversas são sempre sobre "o
futuro".
Mas ninguém percebe que ele já controla os
canais de informação. As notícias são editadas,
as vozes críticas silenciadas. Ele não precisa
usar violência — apenas enganar.
Maria Rosa descobre que o assassinato do irmão
está ligado a um grupo de oficiais que tentaram
impedir a eleição de Ferreira como presidente.
Eles foram encontrados mortos, sem pistas. Ela
começa a escrever cartas anônimas, usando a
mesma caligrafia da carta do irmão. As cartas
chegam a pessoas importantes, gerando confusão.
Ferreira percebe a ameaça. Ele manda seus homens
capturarem Maria Rosa. Ela é levada para uma
casa em Sintra, onde é interrogada. Não fala. Só
olha para o rosto de Ferreira, como se estivesse
vendo um espírito. Ele a solta, mas ameaça:
"Você vai entender o que é verdadeiro quando for
tarde demais."
No dia da eleição, Ferreira é escolhido por
unanimidade. A cidade celebra, mas Maria Rosa
não. Ela sai da praça e caminha até o cemitério.
Ali, entre as lápides, ela encontra um novo
cadáver — o de um oficial que havia testemunhado
o assassinato do irmão. Ele foi morto com a
mesma arma. A carta do irmão estava no bolso.
Agora, a escrita é diferente.
O mundo mudou. A república é real, mas o poder
pertence a quem sabe como usálo. Maria Rosa não
fala mais. Só observa. O crime organizado não é
um grupo — é um sistema. E ela, ao contrário dos
outros, entendeu.


