A casa de família no centro de Lisboa, herdeira
de um negócio de livros antigos, é invadida por
uma força desconhecida. O último descendente, um
homem de trinta e cinco anos, é empurrado para o
papel de vendedor de memórias, um ofício
proibido desde a República. Ele não sabe o que
há nos volumes, mas os leitores pagam caro por
eles — e alguns desaparecem após abrilos.
O governo local, sob pressão da classe média
emergente, decreta que todos os registros
pessoais devem ser arquivados em um novo sistema
centralizado. A resistência é severa: quem
mantém diários ou cartas privadas é acusado de
sabotar a ordem pública. O nobre, sem recursos,
aceita a proposta de um grupo misterioso que
oferece dinheiro para transportar os livros até
uma cidade do interior, onde serão "
reciclados".
Ele parte com um ônibus cheio de pessoas
desesperadas, todas com histórias que não podem
ser contadas. Durante a viagem, um passageiro
morre de forma inexplicável, e o nobre descobre
que os livros estão marcados com sinais que
correspondem a nomes reprimidos. Um funcionário
do Estado, disfarçado, o segue, exigindo que ele
entregue os volumes antes da chegada.
No final da estrada, ele encontra uma aldeia
abandonada, onde as ruínas guardam os restos de
uma revolta esquecida. Lá, ele confronta o líder
do grupo, que revela que os livros são
testemunhas de crimes políticos ocultos. O nobre
tem duas opções: entregar os textos e perder seu
legado, ou destruílos e perder a única chance de
redenção. Ele escolhe queimar os livros, mas
antes, copia uma página com o nome de seu pai,
morto na guerra colonial.
A cidade volta a silenciar, mas o nobre, agora
sem identidade, é visto andando pelas ruas com
uma folha amassada no bolso. Ninguém pergunta
quem ele é. A solidão urbana, por fim, se torna
sua única companhia.


