A escola de meninas na aldeia de São Bartolomeu
fechou há dez anos, mas o pátio ainda guarda as
cicatrizes de um inverno de 1975. O muro do
jardim, rachado por uma explosão de gás, ainda
exala um cheiro metálico. A única que permanece
é Clara, a professora rigoreza, cuja autoridade
é desafiada por uma jovem estudante que insiste
em investigar os antigos registros da escola.
No verão de 1976, os pais dos alunos começam a
desaparecer. Alguns dizem que foram para Angola;
outros falam de sumições repentinas. A cidade
vizinha, onde a guerra colonial ainda ecoa, vê
os homens da aldeia partir com documentos falsos
e malas cheias de dinheiro. Clara, que antes era
apenas uma instrutora de história, agora se
torna a única figura de autoridade restante. Ela
proíbe qualquer discussão sobre o passado, mas
os alunos não param de perguntar: "Por que o
internato foi fechado?"
Em setembro, um grupo de meninas encontra um
caderno escondido nas paredes do dormitório. As
páginas contêm anotações de alunos de 1973,
incluindo uma lista de nomes que coincidem com
os que desapareceram. Uma delas, Maria, é filha
de um agricultor que havia tentado denunciar a
má gestão do colégio. A lista inclui também o
nome de Clara, escrito com tinta vermelha e uma
linha traçada abaixo.
Clara rejeita o caderno, mas os alunos o levam
ao juiz local. Ele nega a existência de qualquer
crime, mas a pressão cresce quando um professor
aposentado confirma ter ouvido conversas sobre
"limpeza" no internato. O clima de medo se
espalha. Os pais que voltam da guerra trazem
notícias de que a escola foi usada como depósito
de armas.
No dia seguinte à revelação, Clara é encontrada
morta no jardim. A causa da morte é afogamento,
mas o corpo está coberto de cinzas. A polícia
ignora o caso, e o internato é demolido para dar
lugar a um novo centro comunitário. As meninas
que sobreviveram saem da aldeia, algumas indo
para Lisboa, outras para o Brasil.
O último ano do internato se encerra com a
construção de um monumento de concreto no local.
Nenhuma placa menciona o que aconteceu. Apenas
uma frase, gravada em português, diz: "Alguém
teve que pagar."


