A casa de Manuel Ribeiro, perto da fonte velha
de Vale Verde, fica vazia desde o dia em que os
vizinhos não o veem sair para o trabalho. O
último sinal: um quadro sobre a mesa, ainda
úmido, representando um rosto sem olhos, feito
com tinta de carvão e sangue de ganso. Ninguém
sabe por que ele usava aquela mistura — mas
todos lembram da velha lenda do "Espírito da
Tinta", contada pelos avós nos invernos de antes
da república.
No dia seguinte, as luzes da aldeia começam a
falhar. Não é apagão. São luzes que se apagam
apenas quando alguém olha diretamente para a
parede onde o quadro estava pendurado. A
primeira pessoa a notar isso é a menina do
correio, que vê sua sombra distorcerse ao passar
pela janela. Ela conta à mãe, que responde com
um silêncio tão profundo que parece um aviso.
Na terceira noite, o sino da igreja toca sozinho,
às três da madrugada. Ninguém o tocou. Os homens
do conselho local reúnemse no quintal, com
lanternas acesas, mas nenhuma delas reflete na
superfície das águas da cisterna. Uma das
lanternas apagase ao toque da mão de um deles.
Ele não sente frio, só um vazio. E depois, um
nome ecoa dentro da cabeça: Manuel.
O quarto dia, o corpo do artista é encontrado no
fundo do poço de pedra, vestido com o mesmo
casaco de lã que usava no dia do desaparecimento.
As mãos estão enterradas na terra, como se
tivessem tentado escavar para fora. No peito,
uma marca em forma de estrela, traçada com tinta
preta que brilha sob a luz negra do novo relógio
solar que agora funciona sem sol.
Ninguém mais menciona o quadro. Mas todas as
manhãs, novos riscos aparecem nas paredes das
casas — linhas que, quando vistas de certo
ângulo, formam rostos de pessoas que já morreram.
Um professor de história, olhando para uma
dessas marcas, percebe que o desenho é igual ao
retrato de um soldado que serviu na Guiné, morto
em 1972. A lista de ausentes aumenta.
No fim, a aldeia fecha as janelas. Ouvemse risos
de criança, mas ninguém está ali. A única prova
de que alguém vive é o som do rádio antigo,
ligado sempre no mesmo programa de música dos
anos 70, mesmo quando a bateria está
descarregada.
E então, a última tela é encontrada debaixo do
piso da oficina de Manuel. Nele, o próprio
artista, olhando para fora, com os olhos
fechados. E atrás dele, uma multidão de rostos
invisíveis, todos com a mesma expressão de quem
se lembra de algo que nunca deveria ter sido
esquecido.
A pintura não tem título. Mas quando o vento
sopra pela primeira vez desde o desaparecimento,
a tela se move. Lentamente. Como se fosse um
sopro.


