A estrada de terra desaparece sob as chuvas de

abril. O violoncelista António Correia, exilado

há dez anos, chega ao povoado de Serra da

Lameira. A aldeia, antes um lugar de festas e

canções, agora é silenciosa, como se o tempo

tivesse sido engolido pelo muro do Estado Novo.

No salão da escola, uma reunião de velhos amigos

reconstitui a memória coletiva. António vê os

rostos conhecidos, mas nada mais lhes pertence.

A única coisa que ainda o mantém ligado ao

passado é o diário de uma mulher cujo nome não

pode pronunciar: Maria Clara.

O diário, escondido em uma caixa de madeira

rachada, contém cartas escritas em 1968, durante

a guerra colonial. Maria Clara era filha de um

professor que se recusou a ensinar o currículo

do regime. Ela escreve sobre sonhos de liberdade,

sobre um amor proibido com um jovem que viria a

ser preso na prisão de Monsanto.

António descobre que o homem era ele mesmo, aos

dezesseis anos. Não havia registro oficial —

apenas uma carta perdida, encontrada por acaso

no armário de uma antiga amante.

Naquela noite, o povoado é surpreendido por uma

tempestade. A electricidade falha, e os

moradores se reúnem em torno da lareira. António

toca o violoncelo, e a música ecoa pelas ruas

vazias. A música é a mesma que ele compôs em

1968, sem jamais ter a coragem de tocála.

Quando a luz volta, Maria Clara não está mais

entre eles. Sua casa foi abandonada há anos, mas

dentro dela, António encontra um retrato de si

mesmo, datado de 1968, e uma nota escrita em

letra miúda: "Nunca te esqueci. Mas não podia te

dizer."

Ele sai da aldeia ao amanhecer. A estrada de

terra está coberta de folhas secas. O violoncelo,

agora silencioso, repousa no colo. Nenhuma

palavra foi dita, mas o amor, que nunca foi

declarado, agora é parte do que permanece.