A casa do senhor Veloso é aberta ao público para

leilão de seus pertences. Entre livros e

ferramentas, uma caixa de madeira traz um estojo

de documentos, selos e cartas antigas. A

multidão se aglomera, mas ninguém percebe o

risco que carrega.

O padre João, recémchegado à aldeia, chega cedo.

Ele observa os rostos, as expressões, os gestos.

Sabe que alguns dos presentes são homens que já

estiveram na prisão, outros que se escondem sob

novas identidades. O leilão é uma fachada. O

verdadeiro objeto de interesse está dentro da

caixa.

O mestreleiloeiro, um homem de voz grave e olhos

calculados, começa a vender itens com ritmo

constante. Quando chega a vez da caixa, ele a

abre diante de todos. Dentro, há um documento

assinado por um coronel da guerra colonial,

datado de 1968. Uma lista de nomes, alguns já

mortos, outros ainda vivos.

O padre João pega a carta com as mãos trêmulas.

Ela menciona um acordo feito entre o governo e

uma facção local, um pacto que nunca foi

revelado. A informação poderia desmontar uma

reputação, acender uma revolta. Ele não pode

deixar isso sair.

No meio da noite, o padre entra na igreja. A luz

do altar é fraca, mas suficiente para ver o que

precisa fazer. Ele escreve uma carta, endereçaa

a um jornalista em Lisboa, e a coloca no

envelope. Enquanto sai, ouve passos atrás. Dois

homens o seguem. Eles não falam, apenas esperam.

Na manhã seguinte, o leilão é interrompido. A

caixa desapareceu. O mestreleiloeiro nega ter

visto algo. O padre João é levado para fora da

aldeia, sem explicações. No entanto, o

jornalista recebe a carta. Ele a publica, mas a

informação é bloqueada antes de sair do país.

O padre volta para a cidade, mas sua imagem é

manchada. Ele não pode mais servir na paróquia.

A aldeia retoma seu silêncio, mas o documento

continua guardado, esperando o momento certo

para ser encontrado novamente.