A empresária Sofia Varela compra um espelho
antigo em Lisboa, adquirido por um colecionador
de objetos místicos. O espelho, feito de cristal
negro e moldura de prata rachada, é dito ter
sido fabricado em 1912, durante a Transição
Republicana, quando o país ainda oscilava entre
ordem e caos. Ninguém sabe como ele sobreviveu
ao colapso do regime monárquico, mas Sofia o
leva para sua casa, sem suspeitar do seu
verdadeiro propósito.
No primeiro dia, ela vê sua imagem refletida,
mas com olhos diferentes — mais velhos, mais
tristes. A noite seguinte, acorda com um vazio
na cabeça: lembrase de um evento da infância,
mas não consegue lembrar qual. O espelho, agora
mais brilhante, exibe novas versões de si mesma,
cada uma com traços distintos, mas todas com a
mesma voz. Ela tenta ignorar, mas as imagens
começam a se tornar mais vívidas, mais realistas.
Uma delas fala: "Você não pertence aqui."
Sofia decide investigar. Procura em arquivos
públicos, encontra registros antigos de uma
empresa desaparecida que fabricava artefatos com
propriedades inexplicáveis. Um funcionário,
morto em 1920, escreveu sobre um "Espelho de
Caminhos", capaz de mostrar possibilidades
alternativas. O preço? Cada reflexão consome uma
memória. Ela percebe que está perdendo dias,
semanas — coisas pequenas, mas importantes. O
espelho parece estar usando sua história para
criar novas realidades, e ela não tem controle
sobre quais serão.
Na quarta semana, o espelho mostra uma versão de
si mesma que vive em 1965, trabalhando em uma
fábrica de têxteis, casada com um homem que
nunca conheceu. Sofia tenta tocar a imagem, mas
sente uma dor aguda no peito. A seguir, acorda
em sua cama, com uma carta antiga em mãos — uma
carta de despedida de um amante que não existe.
Ela não consegue lembrar se a escreveu ou se foi
escrita por outra versão dela.
O espelho começa a mudar de cor, passando de
preto para um vermelho sangue. A pressão aumenta:
cada nova reflexão consome mais memórias, e o
mundo ao redor de Sofia começa a desfocar. As
ruas de Lisboa parecem diferentes, como se
tivessem sido recriadas. Ela procura ajuda, mas
ninguém acredita nela. Sua empresa começa a
falir, e os clientes desaparecem, como se
tivessem sido apagados.
No final, Sofia entra no espelho. A última
imagem que vê é de si mesma, com um rosto
desconhecido, sorrindo em um campo de cerejeiras.
Ela não sabe se é real ou apenas mais uma versão.
O espelho se quebra, e a cidade volta a ser como
antes — mas Sofia não é mais a mesma. Ela não
tem certeza de quem é, nem de onde veio. O tempo,
agora, é um caminho sem fim.


