Na cidade de Vila Nova de Cerveira, o ano de
1973 não se move com relógios, mas com o ritmo
dos sonhos que se materializam em pedra. A cada
amanhecer, os habitantes despertam com
recordações tangíveis: um anel esquecido, um
bilhete de amor esquecido no bolso, um beijo
gravado na pele como cicatriz. O mundo mudou em
1968, quando o primeiro “Sonho Vivo” foi
capturado por uma nova ciência militar — e desde
então, tudo o que se sente verdadeiramente pode
ser visto, tocado, roubado.
A casa de Luísa, na Rua das Figueiras, é o único
lugar onde o sonho não se concretiza. Sua casa
tem um muro de pedra lisa, sem ranhuras, onde
nada pode nascer. Ela vive ali com o filho,
Diogo, dez anos, que nunca sonhou em voz alta
desde o dia em que o pai desapareceu — afogado
num rio que não existia antes do Experimento.
No verão de 1973, Diogo começa a ter visões de
um homem que não conhece: um estranho com olhos
de fogo, sorrindo ao lado de uma mulher que
parece sua mãe. Ele começa a escrever frases que
não entende, coisas sobre “a cama de pedra” e “o
nome que não se diz”. Luísa vê as palavras no
papel, reconhece o traço — é o mesmo que usava
seu marido antes de desaparecer.
Ela sabe que o sistema de sonhos só permite que
certos sonhos se tornem reais: os que têm força
emocional pura. Um sonho de traição, por exemplo,
só se realiza se houver dor genuína. E o sonho
de Diogo — de um pai que o abandona, de uma mãe
que mente — é muito forte.
Em agosto, durante a festa de São João, Diogo
desaparece. Encontrase na frente da antiga casa
dos pais, onde o chão se abre e o corpo do homem
com olhos de fogo está preso sob o piso. Ele não
grita. Olha para Luísa e diz: “Tu sabias.”
Ela responde com um gesto: coloca a mão no
coração dele, como fizera no passado, quando ele
era bebé. Um gesto antigo. Um ato proibido.
Porque em 1968, foi estabelecida a Lei do
Coração Limpo: ninguém pode tocar em outro ser
humano com intenção de proteger ou enganar. A
emoção nesse gesto — mesmo que oculta — faz o
sonho falhar.
Diogo não morre. Mas o sonho dele — o pai que
traiu, a mãe que mentiu — se desfaz. O homem sob
o chão desaparece. O chão volta a ser solo.
Luísa não é levada. Não há registro. O sistema
não registra quem age com amor contra a lei. Mas
ela caminha até a praia, onde o mar não reflete
sonhos. Lá, põe um ramo de alecrim no chão, como
fez na última vez que viu o mar com o marido.
E então, pela primeira vez em cinco anos, o sol
pôrse entre duas sombras — uma dela, outra do
filho que ainda não sabe que foi salvo.
O silêncio entre eles é mais real do que
qualquer sonho.


