A cidade de Coimbra desmorona em 1912. A
monarquia caiu, e os soldados da Guarda Nacional
marcham pelas ruas com armas roubadas. Um homem
de terno desbotado, chamado Rui, caminha entre
as ruínas. Ele foi um ladrão de bancos antes da
Revolução, mas agora busca redenção. Sua única
chance é encontrar o diário de António, um
político exilado que desapareceu em 1910.
Rui entra na Biblioteca Nacional, onde os livros
são mantidos em caixas de madeira e o ar cheira
a mofo e pó de tinta. O diretor, um homem idoso
com óculos de aro grosso, lhe entrega uma chave
antiga. "Há uma sala trancada no subsolo.
Ninguém entra há dez anos." Rui desce as escadas,
onde o chão range e a luz das velas oscila. A
porta é feita de ferro forjado, e a chave
encaixa perfeitamente.
Dentro, há uma mesa de carvalho e um livro de
capa verde. Ao abrilo, Rui vê páginas escritas
em uma caligrafia desordenada. O diário fala de
um plano: um voto secreto que poderia ter
evitado a queda da monarquia. Mas a última
entrada é interrompida. "Não posso escrever mais.
Eles estão me observando."
Na manhã seguinte, Rui é detido por um oficial
da Guarda. "Você andou pela biblioteca sem
permissão", diz ele, enquanto aperta o braço de
Rui. O oficial não sabe do diário, mas Rui
percebe que alguém o está vigiando. Ele esconde
o livro dentro do casaco e sai correndo. No
mercado, vende o diário a um comerciante de
antiguidades por um punhado de moedas. O
comerciante lhe dá um envelope com um bilhete:
"Nunca diga onde encontrou isso."
No dia seguinte, Rui é acordado por uma batida
na porta. Dois homens em trajes pretos entram,
segurando uma arma. "Você tem algo que não
deveria ter", diz o mais velho. Rui recua, mas
não tem para onde fugir. O mais novo aponta a
arma. "Entregue o diário ou morre."
Rui pensa em António, em sua culpa, em como
tentou redimirse. Em vez de lutar, ele puxa o
livro do bolso e o joga contra a parede. O papel
se rasga, e uma folha cai no chão. É uma lista
de nomes — todos oficiais da Guarda Nacional.
Rui pega a folha e a esconde. Os homens hesitam,
então saem. Rui corre para a estrada, onde o sol
ainda não nasceu. Ele sabe que a República não
será salva por um único voto, mas por muitos que
se lembram do que foi perdido.
A cidade continua a mudar. Rui não volta à
biblioteca. O diário é esquecido, mas o nome de
António ainda aparece em cartas trocadas nos
cantos dos cafés. E a lista de nomes permanece
com Rui, como um peso que ele carrega para
sempre.


