A cidade se desmantela em fragmentos de tempo. O
ar pesa como seda molhada, e as ruas não são
mais as mesmas. No centro, uma mulher com cabelo
prateado e olhos fechados por anos de vigília
pisa em um canteiro de flores que não existiam
na manhã anterior. Ela é a única que vê os
sinais: pedras que brilham com escrita antiga,
portas que se abrem para salas vazias, e sombras
que sussurram nomes que ela nunca pronunciou.
No quarto andar de um prédio abandonado, ela
encontra um espelho que não reflete. Através
dele, vê sua própria infância — uma menina
correndo pela praça onde agora há apenas cinza.
O espelho é parte de um mecanismo antigo, criado
por uma sociedade que desapareceu, deixando para
trás um mundo onde o tempo pode ser reescrito.
Mas cada alteração custa algo: memórias,
relações, até a própria identidade.
Ela decide voltar ao passado, mas o portal exige
um preço: um dos filhos que ela protegeu por
anos deve ser deixado para trás. O filho mais
novo, que cresceu sem saber do segredo, é o
escolhido. Ele desaparece no momento em que ela
passa pelo espelho, e a cidade muda. As ruas se
tornam estranhas, as pessoas falam em línguas
que ela não entende, e a casa onde morava está
destruída.
Ela volta, mas o passado já foi alterado. Sua
família não existe mais. O espelho, agora
desgastado, mostra que o tempo não perdoa. Ela
precisa escolher: continuar a viver em um mundo
que não reconhece, ou tentar consertar o que foi
quebrado, mesmo sabendo que o custo será maior.
O espelho não abre mais. A cidade não permite.
Ela fica sozinha, com o peso de um passado que
não pode recuperar, e o conhecimento de que o
tempo é uma força que não perdoa.


