A fazenda de António Pereira é arrasada por um

incêndio que ninguém explica. A terra, antes

fértil, agora tem uma crosta escura e salgada. O

povo diz que o solo foi maldito. António, que

nunca saiu da aldeia, encontra uma carta

amarrada a um galho de oliveira, escrita em

letra minúscula e tinta vermelha. A carta

menciona uma reunião secreta de 1912, onde

líderes da República discutiram o destino do

país. Ninguém sabe quem escreveu, mas o selo na

envelope é de uma instituição desaparecida.

António é acusado de vandalismo após mostrar a

carta ao cura da aldeia. O bispo proíbe a

leitura pública, dizendo que o passado não deve

ser revivido. Mas a carta circula entre os mais

velhos, que lembram de conversas em latim e de

homens com chapéus estranhos que vinham à noite.

António decide ir à capital, onde a carta diz

ter um "testemunho vivo".

No caminho, ele enfrenta uma regra: nenhum homem

pode trazer objetos de fora da aldeia. António

carrega a carta, e ao chegar à cidade, é preso

por violar o decreto. O juiz, que parece

conhecer a carta, ordena sua liberação com uma

advertência: "O tempo não perdoa quem tenta

mudálo".

Em Lisboa, António descobre que a carta foi

escrita por um historiador exilado, que morreu

em 1920. O historiador deixou um diário em um

cofre debaixo da igreja. António o abre, mas o

conteúdo é incompreensível — páginas em branco,

exceto por uma frase: "A verdade é um buraco no

tempo". Ele volta para casa, mas a carta já não

está com ele. Um menino da aldeia a encontrou e

a entregou ao cura.

A fazenda é reconstruída, mas o solo continua

salgado. António passa a vender vinho de uvas

que não crescem mais. As pessoas evitam falar do

passado. A carta desaparece, mas o silêncio que

ela trouxe permanece.