A Casa do Almoço, em Lisboa, é um lugar onde os
jornais são lidos em silêncio e as conversas se
limitam a murmúrios. O burocrata Correia,
encarregado de revisar documentos de propriedade
rural, encontra um arquivo antigo: um contrato
de venda de terra assinado em 1912, com
assinaturas que não correspondem ao registro
oficial. Ele o leva para casa, mas no caminho,
um carro de cavalo derrapa, atropelando um jovem
agricultor. O acidente é considerado "
acidental",
mas Correia vê nas mãos do rapaz um anel de
família — o mesmo que aparece no documento.
Na noite seguinte, Correia é convocado à
Prefeitura. Um grupo de novos oficiais, ligados
a uma associação agrária clandestina, exige que
ele reavalie o caso. Eles apresentam testemunhos
de que o contrato foi fraudado por um senhor
feudal, agora morto, para expulsar famílias
inteiras das terras. Correia recusa, mas recebe
uma carta anônima: "Você tem 48 horas para
decidir. A verdade não espera."
No dia seguinte, o corpo do agricultor é
encontrado no rio, com as mãos amarradas.
Correia, sob pressão de seu superior imediato,
arquiva o caso. Mas na mesma noite, uma carta
chega à sua casa, escrita em letra cursiva: "O
tempo é curto, mas a justiça não dorme." Ele
decide revisitar o arquivo, agora com a ajuda de
uma secretária que trabalha na Prefeitura há
anos e conhece os segredos do sistema.
Ao reabrir o caso, Correia descobre que o senhor
feudal era um dos primeiros membros da república,
que usou o cargo para proteger seus interesses.
O novo grupo de agricultores, liderado por uma
mulher que fala em nome de todas as famílias
expulsas, exige que o contrato seja invalidado.
Correia, agora entre dois mundos, é chamado para
uma reunião secreta no quintal de uma casa
abandonada. Lá, ele ouve promessas de apoio e
ameaças de punição.
No dia seguinte, o documento é publicado como
"documento de interesse público" na imprensa
local. O burocrata é demitido, mas não preso. O
acidente é reclassificado como "morte por
negligência". A nova classe, agora mais
organizada, começa a se movimentar. O Rio Tejo
continua a fluir, mas a água carrega consigo o
peso de um passado que não pode ser esquecido.


