A aldeia de Alva, em 1912, ainda sente o peso da

queda da monarquia. A falação do pão é rara, e

os homens se escondem atrás de correntes de

leite e cebola. O rei já não existe, mas o medo

ainda é um rei.

O jovem Manuel, filho de um ferreiro, é

considerado um rebelde sem causa. Ele não quer

nada — nem terra, nem título, nem mesmo o

respeito dos mais velhos. Sua única preocupação

é a irmã, Clara, que se casará com o filho do

patrão local, um homem cuja família controla a

única fazenda da região.

Em outubro, durante a festa de São Miguel, uma

das poucas ocasiões em que a aldeia se reúne,

Manuel vê Clara dançar com o rapaz. O chão

parece tremer, e ele sente algo estranho: uma

pontada no peito, como se algo dentro dele

estivesse se rompendo.

No dia seguinte, um grupo de trabalhadores do

campo é acusado de roubar trigo. O patrão manda

prender os homens, e Manuel é chamado para ser

testemunha. Ele não fala, mas seu olhar é

suficiente. A regra é clara: quem não apoia o

poder local é considerado inimigo.

Na noite seguinte, Clara vem até ele, trazendo

um envelope. Dentro, há uma carta de um amigo

que lhe promete um futuro fora da aldeia, se ela

sair antes do casamento. Manuel não sabe o que

fazer. A regra é clara: quem tenta fugir é

expulso, e expulsos não voltam.

Ele escolhe. Pega a carta, entregaa a Clara, e

sai da casa sem dizer palavra. Na manhã seguinte,

o patrão descobre a fuga. Os trabalhadores são

punidos, e Clara é obrigada a casar com o rapaz.

A aldeia volta ao silêncio, mas Manuel, agora

fora, começa a escrever sobre o que viu.

Em 1926, o mundo já não é o mesmo. A república

está frágil, e as vozes que antes eram caladas

agora começam a ecoar. Manuel, agora um escritor

clandestino, publica um livro que descreve a

aldeia e o que aconteceu. O patrão é preso, e a

família perde o controle. A aldeia muda, mas o

amor entre Manuel e Clara nunca foi escrito.